
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL LUTA PELA VISÃO CRÍTICA DA MÍDIA
Dentro do Fórum Social Mundial deste ano, uma das palestras que trouxe alguns pontos vitais de discussão em relação à comunicação e à liberdade de expressão, este último, direito fundamental do ser humano descrito em nossa Constituição Federal, foi aquela com o tema de “Comunicação e educação: capacitando a sociedade para uma leitura crítica da mídia”, coordenada pelo Sr. José Luiz Nascimento Sóter, com a participação dos painelistas Roseli Goffman, psicóloga e representante do Conselho Federal de Psicologia da Coordenação executiva do FNDC, Christa Berger, coordenadora do Programa de Pós- Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, e ainda Celso Schröder, coordenador-geral do FNDC, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas e presidente da Federação dos Jornalistas da América Latina e Caribe.
A primeira questão levantada, que nos remete ao supremo interesse financeiro da mídia, em particular da rede televisiva, ao selecionar sua programação, tem o importante papel de alertar às enormes quantidades de mensagens subliminares, assim como aquelas diretamente apresentadas, a que nos expomos todos os dias, sendo que aqueles provenientes dos mais excluídos nichos sociais são freqüentemente os mais afetados por estas representações exageradas e induzidoras da realidade, vez que encontram neste meio de comunicação da televisão uma maneira rápida e “divertida” de passar o tempo, sem a necessidade de grandes análises de sua atual situação e de seu meio social.
Ademais, os painelistas discutiram com intensidade a função exercida pela televisão e outros meios de comunicação na educação da infância e juventude, já que não é incomum que sejam estes instrumentos utilizados a fim de manter crianças e adolescentes seguros em casa, mormente quando é impossível a contratação de uma babá ou o permanecimento dos pais em casa. Com isso, torna-se um hábito que aqueles passem entre 4 e 5 horas diárias diante do aparelho de TV, recebendo interminantemente imagens falsas que transmitem, como não poderia deixar de ser, falsas verdades que incitam e definem a mente em formação.
Neste passo, resta claro que a população brasileira, dentro de todas as suas camadas sociais, tem afetação profunda da mídia e do que por esta é passado, sendo, por essa razão, determinante uma reflexão crítica norteando o conteúdo encontrado naquela.
Assim, é comum a exacerbação das cenas eróticas em novelas, a exposição constante do público à violência, descrevendo crimes e acontecimentos trágicos apenas para o aumento do ibope e ganho de renda em anúncios, e a genérica colocação do ideal consumista-burguês, a imposição de um controle social, reprimindo a luta de classes e sua conseqüente mobilidade e a apregoação da felicidade imediata, o carpe diem hedonista, todos estes fatores que influem para uma sociedade cada vez mais individualista, competitiva e cruel.
É preciso considerar, de fato, a relação de oferta e procura existente na disposição do conteúdo midiático, já que, como é a filosofia do mercado capitalista, não haverá a produção de certo bem de consumo, se não houver aquele que o compre. Vale, contudo, asseverar à possibilidade de que a mídia, nos moldes em que encontramos hoje, somente intensificou-se com a implementação do capitalismo e, por esta linha de pensamento, tem como vínculo de existência a própria venda deste sistema, sem o qual, inevitavelmente, perderia sua base e teria que ser intrinsecamente reformulada.
Foi em vista destas falhas estruturais e nas graves conseqüências das mesmas que estamos congregando em nosso seio social, que foram sugeridas algumas reformas na maneira de se definir o conteúdo repassado pelos meios de comunicação no Brasil. Os painelistas trouxeram algumas conclusões a respeito das possibilidades de realização deste “controle de qualidade” em nossa mídia, tais como:
- O fim da publicidade na qual estejam crianças de até 12 anos, com o fim de permitir que estas desenvolvam primordialmente seu senso cidadão, anteriormente à aquisição dos valores capitalistas da competitividade e do consumo;
- A não publicação de anúncios relacionados a bebidas alcoólicas, a fim de não influenciar crianças e jovens a sua ingestão, como hábito natural e positivo;
- Impedir o enobrecimento do automóvel e do meio de transporte individual de maneira irreal, como forma de ascensão individual na sociedade, procurando arrefecer o sentimento interno de que a possibilidade de se ter um carro iguala-se ao sucesso pessoal;
- Acabar com propagandas e mensagens em programas televisivos, de rádio, jornais e revistas, que induzam ao receptor aceitar que a sociedade é estática e o cidadão deve ser controlado, para que não aja indevidamente e quebre a chamada “ordem social” do capitalismo.
Se, à primeira vista, possam tais sugestões parecer um tanto “censuradoras” da já mencionada liberdade de expressão, vale verificarmos esta questão mais a fundo. Será que pode ser considerada censura a definição de conteúdos educativos e não manipulativos à nossa população? E mais, será que aqueles que fossem responsáveis pelo próprio “controle” não seriam corrompidos por grupos dominantes, violando, portanto, ao revés, a informação repassada? Ou já existe uma censura implícita na informação recebida, sempre atendendo a interesses ocultos de elites e poderosos?
Pois, não fazem mais do que 18 anos desde que teve o fim a ditadura, triste tempo durante o qual uma das armas do regime era, inegavelmente, a censura dos meios de comunicação, para que somente fossem publicados fatos que agradassem ao governo. Assim, inseriu-se em nossa Constituição Federal, como oposição à postura adotada até então, a cláusula que empodera o cidadão e lhe permite a livre declaração de suas vontades, reclamações e insatisfações, por meio do ditado de que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.
Ainda assim, bem como diversos outros mandamentos de nossa Carta Magna, apresentam beleza nas idéias e falhas na prática, já que é sabido que a vasta maioria dos meios de comunicação no Brasil, em particular daqueles com maior alcance, são monopolizados por pequeníssimos grupos de ricos e poderosos, variando-se entre governantes, líderes religiosos e empresas milionárias, algumas, inclusive, controladas por pessoas que abertamente apoiaram a ditadura.
Talvez, portanto, não baste uma tentativa de se melhorar o conteúdo apresentado em nossa mídia por meio de um controle externo e duvidoso da mesma, sendo necessária a verdadeira reviravolta no controle da mesma, possibilidade esta, entretanto, pouco possível de ocorrer.
É por mais essa razão que torna-se sobremaneira relevante a análise crítica destes veículos, sendo necessária, portanto, uma conscientização social desde os primeiros anos da infância, por meio da escola e de outros círculos pelos quais a criança passa, demonstrando ao ser humano, desde a mais tenra idade, como é simples identificar a manipulação e o abuso utilizada, por vezes, nos meios de comunicação, e o viés puramente mercadológico que estes vêm assumindo e como, afinal, devem ser interpretados por cada um de nós.
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